A conversão de Balene
invasões do norte

O mundo girou ao seu redor tão rápido, que demorou alguns instantes para perceber que estava caído de costas. As risadas próximas, que explodiram no salão da estalagem, anunciaram-lhe que tinha sido encontrado pelos capangas do comerciante, cuja mulher envolvera com elaboradas artimanhas de sedução...
Fora surpreendido por trás, enquanto se fartava de vinho, e derrubado entre cadeiras e mesas por um soco no queixo que não viu se aproximar. No chão, sabendo que estava em desvantagem, encolheu-se para receber as pancadas e golpes que não demoraram a cair sobre si.
Depois que foi arrastado e deixado na rua de pedra molhada, ouviu os insultos e risadas grotescas dos capangas afastando-se. Mexeu-se. Não tinha nenhum osso quebrado. Ajoelhou e cuspiu sangue. Tentou lembrar, em vão, onde perdera a espada que levava no cinto. Amaldiçoou. Ao fazer esforço para se levantar, sentiu dores em todo o corpo. Em pé, esfregou as mãos enlameadas nas roupas. O vinho ainda não o abandonara. Persistentes pontadas na cabeça lhe perfuravam as têmporas. Fechou os olhos e abriu a boca para refrescar-se com as gotas frias da chuva em aumento, para atenuar o sabor azedo na língua, para aliviar o inchaço dos lábios ensangüentados.
Sobre a montaria que tinha roubado de uma pousada, Balene partiu na direção de uma antiga vila, onde morava a família da mulher sempre presente nos seus pensamentos. Serena, repetia o nome que evocava lembranças de carícias tenras misturadas ao calor do corpo feminino... Se ela pudesse ajudá-lo teria um lugar para dormir e comida por alguns dias.
No momento que chegou às ruas úmidas da vila, Balene defrontou-se com um inesperado estado de desolação. Eram claros os sinais do incêndio que envolvera as paredes de pedra e destruíra os tetos de taipa da maior parte das moradias. Alguns corpos carbonizados podiam ser vistos do exterior das choupanas abandonadas.
Desmontou. Quando chegou diante daquele que fora o lar de Serena, empurrou com receio o pedaço da porta de madeira que não tinha sido consumido pelo fogo. No interior havia três corpos, mas nenhum deles parecia ser o da jovem mulher que procurava.
Depois de deixar a choupana, o cavaleiro, exausto, foi lavar o rosto com a água que encontrara num balde de madeira. Porém, enquanto estava abaixado, ouviu umas suaves pegadas atrás dele. Virou-se de repente e surpreendeu o homem que se aproximava para atacá-lo. Balene levantou e descarregou um soco no sujeito. No momento que este desabava, um segundo homem investiu com uma lança pelo outro flanco. O cavaleiro se esquivou do ataque e arrancou a haste das mãos do desconhecido. Ouviu-se o barulho de uma besta sendo disparada. Balene sentiu a picada da seta na coxa, uma dor pungente que o fez cair de joelhos. Apenas deu tempo de ver vários homens rodeando-o, antes de começarem a golpeá-lo. A forte pancada que recebeu na cabeça deixou tudo escuro num instante...
Luz. Ainda de olhos fechados, aspirou fundo e convenceu-se de que estava vivo. Sentiu a brisa que vinha da floresta tocando-lhe a nudez, amenizando a queimação do sol inclemente à que fora exposto. As dores crescentes em várias partes do corpo recordaram-lhe o ocorrido. Abriu os olhos. Era fim de tarde. Tentou se mexer. Estava deitado de costas, amarrado sobre uma grande rocha. As cordas que o sujeitavam tinham-lhe esfolado pulsos e tornozelos. Sentiu a garganta seca em brasa. Ergueu a cabeça para olhar ao redor quando ouviu os cascos e as arfadas de um cavalo...

O santo deteve sua montaria quando notou o homem nu sobre a enorme rocha na beirada do caminho. Retirou o capuz da capa que lhe cobria a cabeça e apeou. Pegou um cobertor que levava atado à sela do cavalo e andou devagar para a ladeira da colina, antes de subir sobre o bloco de granito. Percebeu o esforço do homem amarrado para inclinar a cabeça na sua direção e levantar o olhar.
- Conheço essa estrela... - sussurrou o sujeito, referindo-se ao símbolo de oito pontas no hábito negro do monge-cavaleiro.
Sem dizer uma palavra, o santo puxou a faca que carregava no cinto e cortou as cordas que mantinham o homem preso. Depois de fazer um curativo na coxa do infeliz, ajudou-o a sentar-se e o agasalhou com o cobertor.
- Por algum milagre de Deus essa ferida não infeccionou... Calma, você não precisa falar agora - disse o santo ao perceber a intenção do homem. - Vou preparar uma sopa que lhe devolva as forças...
Depois de tomar o líquido revigorante, o homem animou-se a falar.
- Meu nome é Balene - apresentou-se, descendo com dificuldade da pedra.
O santo respondeu com um sorriso e continuou a arrumar na sela da montaria os utensílios que usara para cozinhar.
- Você não vai comer?
- Não é meu corpo que está faminto, mas meu espírito - explicou o monge-cavaleiro.
- Você salvou minha vida. Posso saber seu nome?
- Gärdel.
- Não é perigoso para um servo de Deus viajar por estas terras? Você também pode ser atacado por bandidos...
- Nada é perigoso quando o Senhor está do nosso lado.
- Para onde você está indo?
- Para um lugar rústico e solitário.
- Pode ser qualquer lugar da Terra Conhecida - brincou Balene, sentando ao lado da rocha.
- De certa forma é verdade...
Ao perceber que não ia obter muito do monge, Balene mudou de assunto.
- Não tenho dinheiro para pagar o que você fez por mim.
- Você precisa descansar, irmão, tente dormir. Já é noite. Velarei seu sonho enquanto oro.

Balene fechou os olhos e, embrulhado no cobertor, acomodou-se do lado da rocha sobre a qual o monge orava. Era uma noite cálida, iluminada por milhares de estrelas.
- Senhor dos senhores, Deus Supremo Todo-poderoso, proteja Seus filhos nos dias terríveis que virão. Dê-nos sabedoria para saber que decisão tomar diante do avanço das Trevas. Livre-nos do pecado e das ameaças do Inimigo...
Aconchegado pela escuridão, Balene ouviu o monge entoar em seguida um canto na língua arcaica. 

... LandeR dest astRi, eti memöRia ets histoRien donel.

Dainaya dest moRai eti dest guy cielum fRonti maRe.

IReRi paRis domus deRices dasts ceRRisas.

IReRi paRis domus tolleno RecoRdaRes.

Ouvina mein cantus, LoRdium, poRqua yune allegRo.

Dai benedicta landeR vocai-ei RetoRno-ao.

IReRi paRis domus deRices das ceRRisas… [1]

 

Mesmo sem entender o que foi dito, a voz calma do homem santo, a suave melodia que lembrava as músicas tradicionais, trouxeram-lhe conforto. Após muito tempo sentiu o coração calmo, o corpo leve. Seus músculos relaxaram e, antes de perceber, caiu num sono profundo...

Acordou. Ergueu-se devagar apoiando-se sobre os cotovelos, espreguiçando-se como há muito tempo não fazia. Devia ser mais de meio-dia. O santo meditava do seu lado, observando a imensidão da floresta na beirada oposta do caminho.
- Acho que dormi mais que o necessário - disse Balene. - Desculpe por atrasar sua viagem.
- Você não atrasou - respondeu Gärdel, sorrindo e levantando. - Além disso, você dormiu como uma criança.
- Fazia tempo que não sabia o que era estar na companhia de alguém sem ter que me preocupar para evitar ser roubado...
- Quero lhe pedir um favor - disse o monge. Balene assentiu concordando.
- Quero que venha comigo.
- Para aquele lugar do qual falou?
- Não, irmão. Você ficará na casa dO mais poderoso dos senhores.
- Um castelo? Eu não sirvo a senhor nenhum...
Balene fez uma pausa antes de continuar.
- Você está falando de Hemakiel, não é?
Sem responder, Gärdel foi até sua montaria e pegou a peça de roupa que levava dobrada dentro de um alforje.
- Pode usar isto - disse em seguida, jogando a peça para Balene, que riu ao descobrir que tinha entre as mãos um hábito de monge branco de capa marrom.
- Prefiro andar nu a ofender sua Ordem, santo.
- Vista logo. Foi para isso que você nasceu.
- Como? - inquiriu Balene, surpreso.
- Em quantos sonhos você já ouviu sua voz interior exclamando: “Minha alma pertence ao Senhor!”?

Balene ficou em silêncio, perguntando-se como Gärdel podia saber algo tão íntimo dele. Sem responder, o viu pegar as rédeas da montaria e devagar seguir pela estrada.
- Você está falando sério? - gritou, enfim, enquanto o monge se afastava...

 Balene acompanhou Gärdel pelo caminho que descia das montanhas para o vale. Quando se aproximavam de uma das casas da Sagrada Ordem de Hemakiel soube que sua viagem chegava ao fim.
- É aqui que fico? - perguntou.
- Você sabe a resposta melhor que eu - disse Gärdel. - Deus está lhe oferecendo a chance de conhecer a si mesmo e de dar um sentido à sua vida.
- Estou curioso para saber o que Hemakiel quer de mim -  comentou Balene apertando a mão do monge como despedida.
- Que Hemakiel, Deus Todo-Poderoso, guie seus passos, irmão - despediu-se Gärdel. - Agora preciso seguir meu rumo.
Quando Balene se dirigia na direção do mosteiro, o santo o chamou.
- A mulher que mora nos seus pensamentos está bem e em segurança. Você verá Serena outra vez... 

Andando pela trilha que guiava à casa da Ordem, Balene sentiu seu espírito em paz. Sabia que fazia o certo. Quando os portões se abriram e viu uma luz intensa sair por eles, apressou o passo para corresponder ao abraço de Deus, às boas-vindas que Hemakiel lhe dava para uma nova vida.


___________________________________________________
[1]...Terra do sol, de tradição e história sem par. // Saudades do lar e do céu cinzento frente ao mar. // Irei para casa através das montanhas. // Irei para casa carregado de lembranças. // Ouça meu canto, Senhor, porque parto feliz. // A terra abençoada me chama de volta. // Irei para casa através das montanhas...”

Filhos de Hemakiel©™