Elora*
invasões do norte

 

Antes de o mundo ganhar a forma que hoje tem, na chamada Era da Transformação, quando os Treze Clãs ainda travavam guerras pela supremacia num mundo de um único continente, líderes, heróis, começaram a definir os alicerces dos primeiros reinos nas poucas regiões resguardadas da desordem e das calamidades que acompanhavam as batalhas.
Muitos desses heróis alcançaram a imortalidade em canções e relatos, tecidos com versos de proezas e bravura, repetidos com admiração até hoje em cada canto da Terra Conhecida. Dentre esses exemplos memoráveis de coragem, um deles ganha luminosidade não por se referir a guerreiros rudes, mas a uma filha jovem de camponeses...
Elora foi o nome dessa mulher de beleza incomum. Várias descrições que chegaram a nós contam-nos que tinha cabelos loiros lisos e olhos azuis acinzentados. A aguçada astúcia com que Deus a abençoara teria sido sua principal arma contra o destino funesto do homem que amava...

Segundo um relato antigo chovia copiosamente na tarde gris em que uma feiticeira da lagoa Tirísia revelou a Elora o futuro do altivo Abner, o jovem guerreiro a quem ela fora prometida para casamento. Grossas lágrimas sulcaram o rosto da jovem diante da previsão da feiticeira: o futuro marido se cobriria de glória no campo de batalha, mas para isso pagaria com a vida.
Elora resistiu a aceitar o fim do amado. Sem perda de tempo, partiu cedo, no dia seguinte, no encalço das tropas do rei Waldo. Enquanto atravessava uma floresta pelo caminho que o rei e seus homens - entre eles Abner - tinham percorrido cinco dias antes pedia perdão em orações por desafiar o destino imposto por Deus.

O rei Waldo tinha um caráter obstinado. Seu orgulho, quando ferido, empurrava-o a agir impulsivamente, a cometer erros dos quais poucas vezes se arrependia. Assim, quando as tropas do rei Ulric, senhor das terras vizinhas, saquearam algumas vilas fronteiriças dos domínios de Waldo, este decidiu punir o rival liderando contra ele as poucas tropas disponíveis com que contava naquele momento, arriscando-se a avançar por território inimigo sem nenhuma precaução.
Duas semanas depois de iniciada a campanha, as provisões começaram a escassear. Waldo, longe de aceitar a situação, insistiu para que suas tropas penetrassem ainda mais em território inimigo e, desse modo, forçassem Ulric a uma batalha aberta. O rei inimigo, em vez de ceder à provocação, ordenou o retiro rápido e organizado da população ameaçada para que os invasores ficassem sem alimentos ou apetrechos. O estratagema deu certo. Quando Waldo, pressionado por seus soldados, enfim decidiu rever seus planos era tarde demais. Ele e seus homens foram cercados e obrigados a se render numa vila abandonada, esgotados, sem poder continuar.
Diante da vitória fácil, Ulric decidiu humilhar ainda mais seu velho inimigo. Planejou uma festa, cheia de pompa, à qual “convidaria” para jantar Waldo e seus principais guerreiros, todos vestidos como mulheres...

No começo do dia em que Ulric celebrava sua vitória, Elora chegou ao principal povoado do reino. Com as comemorações em curso, não foi difícil para ela conhecer o abrupto fim da campanha de Waldo e a humilhação preparada para este naquela noite. A jovem pensou rápido. Não demorou a lembrar da fórmula relaxante para provocar o sono que a sua avó tinha lhe ensinado. Uma dosagem exagerada misturada à comida poderia enfraquecer Ulric e seus homens. O vinho faria o resto.
Com a confusão da bebedeira, ninguém questionou ou se preocupou com a presença de Elora, quando esta, depois de entrar no castelo e se disfarçar como uma das inúmeras filhas do rei, se ofereceu para ajudar as mulheres que trabalhavam na cozinha, apressadas pela fome insaciável dos guerreiros no andar de cima. Ninguém percebeu quando a jovem jogou discretamente nos caldeirões de sopa a mistura em pó que previamente tinha preparado. Enquanto observava a mistura de ingredientes marrom desaparecendo no líquido espesso que Ulric e seus homens comeriam, Elora pensou se teria usado as quantidades certas de yiuli, mugali e folha-de-lobo.
Pela metade da tarde, a falsa princesa ajudou as criadas a servir a comida aos homens famintos, bêbados e suarentos, cujas gargalhadas se misturavam à música que alegrava o enorme salão do rei. Depois disso ofereceu-se para atender os guardas que cuidavam dos prisioneiros nas amplas celas no porão do castelo.
O efeito da fórmula que a jovem usou foi mais forte que ela imaginara. Quando voltava à cozinha para buscar mais bebida para os guardas que estavam no porão percebeu que a barulheira e gritaria no andar superior tinham diminuído notavelmente... Era esse o momento que ela estava esperando.
Após deixar para trás os cochichos das cozinheiras sobre o que poderia ter acontecido, Elora desceu correndo os degraus que conduziam às celas. Não a surpreendeu encontrar mais de quinze soldados dormindo em diversas posturas, deitados ou sentados no chão, debruçados sobre uma mesa velha. Cheia de excitação procurou o guarda caído que carregava as chaves das celas numa enorme argola amarrada ao cinto.
- Rei Waldo! - chamou a jovem com as chaves na mão. - Abner! Você está aqui?!
De repente, de uma cela escura, pelas grades da janela da porta de madeira, chegou até ela a voz que tanto anelava ouvir. Reconheceu nas palavras desconfiadas, derrotadas, a voz do homem com quem sonhava...
- Estou aqui. Quem me procura? - perguntou Abner, mostrando o rosto pela janela.
A jovem explodiu de emoção e correu até a porta, quando reconheceu na penumbra o olhar que a encantava.
- Elora?! O que você faz aqui?!
- Vim ajudar... - respondeu a jovem antes de explicar brevemente o acontecido. Abner se virou incrédulo, emocionado, procurando seu senhor, Waldo, no interior da cela, quando viu nas mãos da noiva, as chaves que confirmavam a história. Elora escutou vozes murmurando detrás da porta e passos decididos em direção à pequena janela por onde Abner aparecera.
- É verdade? - questionou o rei com aspereza a Elora.
A mulher assentiu.
- Então? O que está esperando?
Elora franziu o cenho e cruzou os braços.
- O que você está fazendo? - reclamou Abner. Os rostos de outros homens começaram a aparecer nas portas das outras celas, ansiosos.
- Vocês não vão sair daí até que me façam uma promessa - disse a jovem, altiva, indignada.
- Que?! - explodiu Waldo. - Eu sou teu senhor, garota...!
- Elora, pelo amor do Altíssimo, abre logo essa porta... - pediu Abner temeroso, diante da fúria do rei.
- Não até vocês fazerem uma promessa.
- Escute bem, garota, abra logo essa maldita porta, senão...!!! - ameaçou Waldo, furioso.
- Senão, o quê...? - cortou Elora, erguendo a mão com as chaves, fazendo-as balançar no ar.
- Você enlouqueceu?! - esbravejou o rei.
- Elora, acho que você não está entendendo... - tentou argumentar Abner.
- Acho que são vocês que ainda não entenderam...
- Tudo bem, tudo bem... o que raio você quer? - claudicou Waldo para resolver logo a situação.
- Quero que vocês jurem por Deus que, ao saírem daqui, não vão ferir ninguém.
- A bruxa pirou! - cuspiu o rei.
- O que deu em você?! - disse Abner, perdendo a paciência.- Eles queriam nos humilhar. Temos a chance de nos vingar...
- Se não jurarem, não posso ajudá-los - respondeu Elora lacônica, virando-se, ameaçando ir embora, para desespero dos homens que a observavam.
- Está bem... está bem... - concordou Waldo se atropelando nas palavras.
- Jurem por Deus e por seus antepassados. Que eles os amaldiçoem se não cumprirem sua palavra.
Os soldados que ouviram a jovem silenciaram diante da ousadia. Waldo pa-receu hesitar, mas concordou depois de alguns instantes.
- Você venceu, garota. Você tem razão. Ulric poupou nossas vidas - disse o rei, antes de se dirigir aos seus homens. - Vamos demonstrar, meus fiéis irmãos, que nós também sabemos ser misericordiosos. Juremos por Deus e nossos antepassados fazer como a garota pediu.
Tendo ouvido Waldo, Elora se apressou a abrir as portas das celas. Com Ulric e seus guerreiros dormindo, para os homens recém libertos não foi difícil fugir do castelo e deixar a cidade ilesos.

A partir desse dia, a presença de Elora na vida de Abner aumentou. O jovem guerreiro não renunciou aos seus apetites de glória e fortuna. Porém, para sua sorte, a mulher que o amava sempre esteve perto dele para protegê-lo do infortúnio. Decidida como era, Elora empenhou-se em evitar que a previsão da feiticeira do lago se cumprisse.

Contam as lendas que o amor puro que Elora professou por Abner comoveu a divindade que, depois de uma vida longa, a transformou numa estrela, na Estrela Brilhante que governa o céu todas as noites... na estrela que ajuda os viajantes a se guiarem na escuridão... a mesma estrela que vela o sono dos corações solitários...

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[1]
* Acredita-se que Elora, Eliora, Eleora, são diversos nomes para a mesma personagem mítica que aparece em mais de doze textos encontrados. Há ainda um romance escrito em cento e sessenta e oito pergaminhos sobre esta personagem.

Filhos de Hemakiel©