A Torre de Helda
era da nova ordem

Quando soubemos da aproximação dos batedores, muitos deixamos nossos postos e descemos ao pátio da torre para conhecer as notícias que traziam. Os dois cavaleiros entraram pressurosos pelo portão principal e detiveram suas montarias no meio do círculo de homens nervosos que espontaneamente se formou para recebê-los. Niall, que parecia ser o mais jovem dos quatro durvalions que acompanhavam nossa guarnição, desmontou com a tranqüilidade que governa os espíritos dos guerreiros de Deus e retribuiu nossos olhares ansiosos com um sorriso transbordante de paz. Nunca entendi os durvalions. E talvez nunca descubra como podiam permanecer calmos, mesmo quando parecia que o céu ia desabar. Todos na fortificação estávamos preocupados porque sabíamos que a força de criaturas malignas, que se dirigia ao Santo Lar, passaria pela nossa posição, a Quarta Torre. Mas os durvalions jamais perdiam a esperança...
Helda, uma guerreira de Deus, mais corajosa que muitos campeões, apareceu no meio dos soldados, vestindo a capa branca com a Estrela de Hemakiel, que usava sobre a armadura dourada, e olhou para Niall. O durvalion foi breve e direto.
- São muitos. Se ficarmos aqui, sucumbiremos - disse, antes de puxar as rédeas da sua montaria e deixar o círculo de soldados consternados em direção ao estábulo.
De imediato, as perguntas caíram sobre o outro batedor, um veterano chamado Gunnar. A expressão de angústia no seu rosto barbado foi suficiente para que entendêssemos as dimensões do perigo.
- Não dá para acreditar. Deus sabe que nunca alguém de nós viu algo semelhante - afirmou o velho soldado enquanto desmontava. Do meu lugar percebi como as mãos do homem tremiam, desmentindo a serenidade forçada em sua voz.
- Quantos são? Quantos? - indagaram com insistência alguns guerreiros, preocupados, como eu, em receber uma morte rápida, no caso de um confronto inevitável.
- É impossível saber ao certo. Com sorte, quinhentos para cada um de nós.
- Que chances temos, Gunnar? - perguntou uma voz, sem dissimular o terror que se filtrava em cada palavra pronunciada.
- As paredes que nos rodeiam são grossas e sólidas para deter a Escuridão por algum tempo - interveio Helda com firmeza.- Todos vocês são homens corajosos e dignos de admiração. Contudo, eu, Guardiã da Quarta Torre, vos garanto: não é nesta fortificação que vereis a face da morte.
Apesar de Helda parecer-nos decidida, como todas as vezes que exigia o máximo de nós, seu discurso desta vez era diferente.
- Deveremos apressar-nos para chegar aos muros do Santo Lar. Lá, junto a outros irmãos durvalions e guerreiros de todo o Sul, teremos melhores condições de resistir ao inimigo.
Vozes aprovadoras ergueram-se entre os soldados. Helda tinha razão, diziam. No Santo Lar agrupara-se um exército de durvalions e homens. Sim! Havia a possibilidade de sobreviver dentro da cidadela.
Bastou Helda olhar para Aleric, nosso comandante, um homem de uns cinqüenta anos, lanceiro experiente das terras que chamam de Tovar, para que ele ordenasse o abandono da torre. Nunca uma ordem foi recebida e executada com tanto entusiasmo.
Gaderic e Milbert, guerreiros experientes, percorriam os corredores da torre, repetindo que devíamos levar além do equipamento de batalha, comida suficiente para seis dias. Estaríamos a salvo depois de transpor os portões do Santo Lar e não antes, quando ficaríamos expostos em campo aberto...

Os trinta e dois cavalos foram selados. Sabíamos a caminhada que nos aguardava pelo deserto. Teríamos de agir rápido. As criaturas eram velozes. Segundo o que Gunnar tinha confiado a uns poucos guerreiros, esses seres amaldiçoados protegiam-se com peitorais de metal e carregavam cimitarras. Em um dia alcançariam os portões da torre. Pelo menos era isso que acreditávamos...
Expressões de horror desenharam-se nos rostos dos soldados quando ouvimos os tambores do inimigo se aproximando. Exclamações de surpresa e medo preencheram cada um dos níveis da fortificação. A onda terrível de criaturas das Trevas estava preste a nos alcançar. O tempo se esgotava impiedoso.
Às pressas descemos até o pátio para ordenar-nos e esperar a ordem de partida. Aqueles que não conseguiam conter-se oravam em voz alta para tentar abafar com as próprias palavras os golpes dos tambores amaldiçoados. Antes que a impaciência nos empurrasse a reclamar, os portões se abriram. Acostumados como estávamos à escassa iluminação das tochas e dos fachos de luz que atravessavam as pequenas janelas abobadadas, demoramos alguns instantes para encarar a claridade que restava do dia. Quando vimos as portas de carvalho rangendo, abrindo-se, nossos corações carregaram-se de esperança. Deveríamos correr para salvar a vida?
De repente vi Helda montada num garanhão preto, seguida pelos outros durvalions, também a cavalo, avançando entre os soldados a pé. Seu cabelo loiro, arrumado numa única trança, iluminava-se sob a mortiça luz do sol. Sua capa, impecável como sempre, descia-lhe pelas costas até a garupa do animal, acariciando-a suavemente. Depois de atravessar os portões, Helda virou-se no cavalo e desembainhou a espada. Com a outra mão segurava as rédeas. Os estrondos do inimigo aumentavam sem cessar.
- Irmãos, os servos do Mal estão perto. Avancemos para o nosso destino! - disse usando a arma para apontar na direção que devíamos seguir.
Estávamos aterrados. Não sei como saímos da fortificação em ordem, com os cavaleiros do regimento acompanhando nossos flancos. Escoltada pelos outros durvalions do lado dos portões, Helda observava nossa passagem, nossa fuga que nada tinha de vergonhosa. Lembro que quando eu e meus companheiros de armas passamos do seu lado, ela nos lançou um olhar tenro, quase maternal. Esse seria o último olhar que receberia, pois em seguida a vi virar-se e dizer algo a Niall.
Nunca terei certeza do que aconteceu mais tarde. Depois de termos marchado quase um quarto de légua ouvi gritos de surpresa, questionadores. Helda e os outros três durvalions não estavam conosco, tinham se atrasado perigosamente. Alguns cavaleiros voltaram à torre, enquanto Aleric berrava e nos forçava a andar o mais rápido que podíamos. Os tambores do inimigo soavam muito perto. Continuavam a explodir num compasso frenético.
Vi os cavaleiros nos alcançando agitados. Não acreditei quando relataram que as criaturas preparavam-se para assaltar a torre. Como não encontraram nenhum sinal dos durvalions, nem da Guardiã, retornaram em disparada. Então, continuamos. Sem que percebêssemos apertamos o passo, quase corríamos, instigados pelo medo, pelo terror, com a idéia fixa de que a qualquer momento os cavaleiros na retaguarda iriam nos chamar à formação de batalha. Mas isso nunca aconteceu.
Lembro que não dormimos nessa noite nem na seguinte. No terceiro dia somente uns poucos estavam dispostos a prosseguir. Ficamos mais tranqüilos quando os tambores diminuíram de intensidade. Quando alguém afirmava que os durvalions ficaram na torre para atrasar as criaturas, o silêncio envolvia a companhia. Mergulhados na nossa ânsia de sobreviver, nos preocupávamos apenas como o que tínhamos na frente. Interessava-nos somente cada passo que dávamos para longe do perigo...

Fui um dos poucos guerreiros da Quarta Torre que não tombou durante as investidas da Escuridão ao Santo Lar. Sobrevivi para contar esta história. Dois dias depois que as criaturas foram repelidas, parti para o lugar onde vi Helda pela última vez. Fiquei chocado com o que descobri. Em todos os níveis havia evidências de combates. As paredes de pedra apresentavam cortes profundos, com certeza, provocados pelas poderosas espadas dos durvalions. Sinais de incêndios se estendiam pelas rochas, do chão ao ponto mais alto da torre, como vestígio da ira das Trevas. Sabemos que o inimigo se atrasou dez dias nos combates na Quarta Torre. Quantas criaturas teriam caído antes de Niell, Hynulf, Beren e Helda tombarem?

Ultimamente, um sonho me visita com freqüência. Nele vejo os quatro durvalions lutando no topo da torre, envolta completamente em chamas. O sonho é tão real que posso sentir o cheiro da fumaça, ouvir o som das lâminas de metal se encontrando. Em algum momento do sonho, as criaturas somem e a luta pára. Helda sorri de forma que nada pode ser-lhe negado e em seguida diz algo que agora começo a entender.
- Em breve todos estaremos juntos na torre, Milles. Falta pouco para você vir a nós como antes... para sempre...

Filhos de Hemakiel©™