Os Campos de Módise
invasões do norte

Fragmento de autor desconhecido - I

- Que Deus tenha piedade de nós! - exclamou o conde Zamath, um dos nobres mais respeitados de Antovaz, misturado ao círculo de cavaleiros reunidos com a princesa Marlenna. - Alteza, o que o santo quer é um suicídio. Estamos presos neste vale por seguir os conselhos dele e agora, que ficamos sem saída, pede que ataquemos um exército cinco vezes maior...
- Lutaremos de acordo com o plano do Capitão Fredo de Tovar, Zamath - cortou a jovem herdeira, vestida com uma armadura prateada cintilante. - A minha decisão já foi tomada. Deus nos dará a vitória sobre aqueles que questionam meu direito de ser rainha.
O nobre veterano insistiu nos motivos de sua preocupação. Suas palavras não esconderam a angústia que carregava...

 

Das memórias de Berani Luver, arqueiro real de Antovaz

Diante da desproporção de forças, lutar parecia uma loucura. Estávamos encurralados. Nossos flancos limitavam com dois bosques frondosos de relva alta. O rio Levy, às nossas costas, prometia-nos uma retirada desastrosa para o leste. À nossa frente, uma faixa de oitocentos passos de largura e novecentos de comprimento separava-nos do exército de vinte e cinco mil homens dos nobres sulistas, que não aceitavam que a herdeira legítima do rei Sazer, Marlenna Pfener, acedesse ao trono de Antovaz.
No segundo dia, todos esperávamos que a princesa chegasse a um acordo com os rebeldes. Emissários partiam e voltavam ao nosso acampamento, sob uma chuva persistente, inacabável. Negociar parecia a única saída.
(...) Boatos de revolta circulavam entre os homens, longe do olhar dos oficiais. Os mais ousados afirmavam que a princesa somente dava ouvidos ao Capitão da Ordem, Fredo, comandante dos santos.
Eu soube de alguns nobres que juraram rebelar-se contra os monges-cavaleiros, caso fosse descoberto que a princesa tinha sido enfeitiçada para fazer a vontade deles.
Todos estávamos nervosos, de fato. Não fazíamos idéia do que estava por vir...
(...) No quinto dia, trombetas nos acordaram cedo. Por algum estranho motivo, que somente Deus conhece, não choveu naquela manhã.
Fiquei alarmado quando um oficial nos ordenou aos gritos que preparássemos várias cordas, aljavas, e carregássemos as estacas de oito pés de comprimento, cujas extremidades tínhamos afiado no dia anterior. Tudo indicava que marcharíamos contra o inimigo. Atacaríamos em pouco tempo.
(...) Que tipo de loucura poderia ter-se apoderado dos pensamentos da princesa Marlenna? Perguntávamos-nos, quando a descobrimos cavalgando, vindo do centro do exército, seguida por uma escolta de santos. Ela percorria o flanco usando o elmo prateado, parecido com aquele que pertencera ao nosso amado rei Sazer. Permanecemos observando a majestade, a coragem, a confiança que a princesa transbordava apesar de ainda ser quase uma garota. Aquilo nos fez recordar os dias gloriosos do bom rei Sazer e dos nossos juramentos. Sentimos vergonha das dúvidas que até então nos abrumaram. Lembramos do porquê estávamos ali. “Longa vida a rainha!”, gritou alguém. E em seguida, todos aclamávamos com orgulho a sucessora da linhagem dos Pfener...

 

Relato do padre Sven Gorel de Tebruk

Eu dormia numa elevação na retaguarda, na altura do centro do exército, quando ouvi gritos no flanco direito. Os homens aclamavam a herdeira do rei Sazer. Não entendia como uma jovem de pouco mais de dezoito anos conseguia impor respeito em guerreiros experientes, acostumados com o sacrifício imposto pelas guerras...
(...) Ouvi as ordens dos oficiais e vi o exército deixando a segurança das defesas, cinco mil arqueiros, e mil nobres e lanceiros a pé, avançando, levando com eles compridas estacas de madeira.
- Meu Deus do céu! Então é verdade que vamos atacar! - exclamou angustiado o ajudante do Bispo de Tebruk, um jovem noviço que nunca tinha presenciado uma batalha...
(...) Da minha posição privilegiada vi os arqueiros e lanceiros de Antovaz e Tebruk andarem, em ordem, pelo lamacento campo de Módise até uns quatrocentos passos dos sulistas, onde enterraram as pesadas madeiras de pontas afiadas apontadas contra o inimigo. A forma organizada e a rapidez com que nossos homens se deslocaram surpreendeu os sulistas de tal forma, que os nossos puderam erigir uma linha de estacas, perigosamente disposta para resistir a uma carga de cavalaria pesada.
Divididos em igual número, os arqueiros posicionaram-se nos flancos, enquanto os nobres permaneciam no centro com os lanceiros. Marlenna observava aquele que seria o cenário da carnificina montada sobre um garanhão preto, atrás dos nobres, protegida pelos santos. O estandarte real dos Pfener, no centro da nossa posição, visível do outro lado do campo, era uma atração para os sulistas difícil de ser ignorada. Tudo estava pronto.
Trombetas tocaram novamente. Então arqueiros, organizados em grupos, avançaram mais cento e cinqüenta passos para provocar o inimigo, retesaram as cordas dos poderosos arcos de guerra e dispararam... a morte delirou de emoção...

 

Fragmento de autor desconhecido - II 

Ocupávamos o ponto mais estreito do campo, quando as flechas caíram sobre o inimigo. Foram duas saraivadas, suficientes para deixar os sulistas irritados.
Estava em pé, segurando a minha lança, quando vi a primeira linha inimiga se mexendo. O deslocamento inicial de cavaleiros e soldados foi muito confuso por causa da terra molhada. Estremeci no momento que a cavalaria inimiga se adiantou e iniciou a carga. Ouvi gritos em toda nossa posição. Milhares de armas desafiavam os atacantes que, limitados pela estreiteza do campo e sem poderem manobrar as montarias, lançaram-se num ataque frontal, destemido, contra a paliçada que tínhamos erguido.
Aí vinham os briosos nobres do sul, disputando a frente da primeira linha da vanguarda, exibindo seus estandartes com ousadia...
(...) Os zunidos começaram. Terríveis. Centenas, milhares de projéteis saíram dos nossos flancos como nuvens escuras. Voaram velozes e golpearam com assustadora violência os cavaleiros em armaduras, que galopavam na nossa direção buscando cobrir-se de glória. As flechas perfuravam implacáveis os protetores de metal, cortavam a carne e quebravam ossos, derrubando homens, cobrindo o campo de mortos.
Aqueles poucos que conseguiram superar as barragens impiedosas de projéteis bateram de frente contra as estacas que tínhamos colocado. Resistimos ao embate. Golpeávamos com espadas, lanças e piques. Muitas montarias feridas, assustadas, depois de perderem os donos, descontrolaram-se e voltaram, desorganizando o avanço da linha de soldados que se aproximava a pé.

 

Relato do padre Sven Gorel de Tebruk - II

Do outro lado do campo, o inimigo avançou contra nós. Incontáveis guerreiros, armaduras, cavalos, faziam parte do vagalhão de aço que investia contra nossa linha. Fiquei arrepiado com o fragor que se aproximava. Não tínhamos chance. Puxei as rédeas da minha mula para controlá-la, imaginando que pudesse estar tão nervosa como eu. Busquei a princesa com o olhar, e a encontrei impassível diante da ameaça crescente. Vi no campo que a cavalaria sulista se adiantava às tropas a pé. Assustado, orei, e orei em voz alta para encorajar os homens dispostos a enfrentar com valentia a morte certa. Então, aconteceu algo que mudou as coisas...
(...) Uma nuvem de flechas saiu de cada flanco em direção ao inimigo. Outra saraivada foi disparada e, em seguida, outra. À primeira vista, pareceu que nossos arqueiros nada faziam aos atacantes. Porém, não demorou para que ficassem evidentes os sinais do terrível estrago provocado.
Cavaleiros de pesadas armaduras era arrancados das selas, atingidos pelas flechas, e caíam na lama diante do galope das montarias que vinham detrás. Homens e bestas derrubadas criaram um terrível caos entre aqueles que insistiam em investir contra nós.
Vi alguns nobres com as armaduras crivadas tentando se erguer para continuar a atacar em pé. Procuravam se proteger com escudos, mas pouco podiam fazer diante da chuva de metal que nossos experimentados arqueiros disparavam sobre eles...
(...) Ao ver a vanguarda inimiga sendo destruída sem piedade senti a esperança renascer na alma - sentimento do qual me arrependeria mais tarde. Hoje, quando lembro do acontecido, uma sensação estranha confunde meus pensamentos. Homens estavam morrendo por nossa causa. Estávamos matando homens, irmãos que poderiam lutar conosco contra o Mal, o verdadeiro inimigo... 

 

Relato de Lannius, lanceiro de Antovaz

Depois da cavalaria vieram os soldados. Demoraram a chegar. A lama, o peso das armas e os corpos dos companheiros caídos atrapalharam seu avanço tornando-os alvos fáceis para nossos arqueiros.
Não tive compaixão com aqueles que alcançaram minha posição na paliçada. Lembro que enterrei a ponta de aço da minha lança entre o pescoço e a clavícula de um rapaz, que quase desfalecia de cansaço por todo o esforço despendido para chegar à nossa linha. Consegui ver seus olhos arregalados no rosto sujo de lama, antes que caísse sem vida...
(...) Disparando incansáveis desde os flancos, os arqueiros salvaram nossas vidas. Quando a luta perdeu intensidade na paliçada, vi muitos deles correrem para o campo e, com cutelos e facas, acabarem com a agonia dos feridos. Nosso trabalho naquele dia foi mais fácil do que jamais poderíamos ter imaginado....
(...) Depois que a infantaria foi detida, nossos gritos vitoriosos foram silenciados pelos berros dos oficiais e com razão: Até este momento só tínhamos enfrentado metade do exército sulista. Ouvimos cornetas nas posições inimigas. Uma nova investida estava sendo organizada.
De repente, trombetas soaram ensurdecedoras atrás de nós. Vários lanceiros retiraram algumas estacas em vários pontos da nossa defesa. Não entendi o que acontecia, até que os santos e vários senhores de Antovaz, encabeçados pela princesa Marlenna, passaram pelas brechas recém criadas na paliçada...
(...) Não acreditei no que aconteceu. Um momento atrás, agradecíamos por haver sobrevivido. Pouco depois, carregávamos contra o inimigo.
Corremos como desvairados pelo campo lamacento, detrás da cavalaria. Enquanto pulava cadáveres percebi nossa obra de morte. Vi ao meu lado homens totalmente fora de si, espectros irreconhecíveis de aparência aterradora. Gritei alto para me sentir vivo, mas o som da batalha não deixou que ouvisse minha voz...
(...) Guiados pelo estandarte da princesa, nos atiramos com ferocidade sobre aqueles que tentaram negar a vontade de Deus.
No fim do dia, o estandarte dos Pfener balançava vitorioso nos campos de Módise. Nos campos onde uma garota enfrentou a rebeldia de seus inimigos como princesa e se impôs sobre eles como rainha...


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