Os zargulls do leste
invasões do norte

- Porque raios não esperaram até o amanhecer? - perguntou Daren, assim que pulou da montaria, ao monge-cavaleiro da Sagrada Ordem que saiu pelos enormes portões do castelo arrombados com um pesado aríete.- Quem ordenou o ataque?
- Mabert disse que precisávamos agir, Capitão - respondeu o irmão de armas chegando ao seu lado.
- Onde ele está?
- Invadiu a residência senhorial junto com mais seis dos nossos, mas até agora nenhum deles saiu. Não sabemos o que há dentro.
- Há zargulls, Renan. O que mais esperavam achar? - O veterano esforçava-se para não demonstrar sua irritação pela indisciplina de Mabert. - Houve resistência no muro?
- Nenhuma.

Seguido por Renan, Daren passou pelas defesas externas e atravessou o pátio coberto de neve, entre o muro e o edifício principal, ocupado por uma vintena de santos de rostos rudes, que se protegiam do frio vestindo peles grossas sobre os mantos marrons. Enquanto andava, o Capitão procurava sinais do inimigo nos níveis superiores da residência senhorial - uma decadente construção quadrangular de pedra, de quase vinte e cinco braços de altura, com duas torres de ângulo.
- Alguma vez você viu um desses zargulls, Renan? - perguntou Daren ao cavaleiro que o seguia, quando chegou ao grupo de santos que, postados em ambos os lados da entrada aberta do edifício, cumprimentaram-no respeitosamente.
- Eu... ainda não, senhor.
- Você sabe usar um arco?
- Sim, Capitão.
Daren sorriu.
- Então você virá comigo.

Diante dos portões escancarados, Daren segurou as braçadeiras do escudo, que recebeu de um irmão, e com a mão livre pegou uma tocha. Renan colocou no ombro a alça de uma aljava carregada de flechas e empunhou o arco de guerra de teixo, cuja altura lhe chegava ao nariz.
- Se não sairmos até o amanhecer - disse o Capitão aos santos na entrada - usem
haschir
[1] para purificar o lugar.

Guiados pela solitária luz da tocha, Daren e Renan adentraram a passagem formada pelas colunas de um imenso salão. A sinistra calma no recinto era levemente perturbada pelas pegadas dos cavaleiros sobre o chão de pedra e pela nervosa respiração do santo com o arco. O lugar poderia ser considerado abandonado, não fosse o forte cheiro de umidade e excremento que denunciava a presença dos zargulls.

Depois de percorrerem quase cinqüenta passos, os cavaleiros ouviram um estranho barulho à direita, parecido com um movimento rápido de asas, seguido de outro no lado oposto do salão. Uma agitação intensa se iniciou de repente ao redor dos homens, como se as desconhecidas sombras causadoras dos barulhos estivessem descrevendo círculos na escuridão em torno deles.
- Por Hemakiel! O que é isso? - perguntou Renan, nervoso.
- Fique calmo e não demonstre hostilidade - respondeu o Capitão, severo - Continuemos.

Poucos passos adiante os santos depararam-se com o corpo despedaçado de um homem. O bater de asas acabou de súbito e dezenas de aterrorizantes olhos avermelhados se acenderam como pequenas brasas circundando os dois cavaleiros. A Estrela de Hemakiel, ainda visível no manto marrom rasgado e coberto de sangue, indicava que o caído devia ser um dos irmãos da Ordem que invadiram o prédio.
- Somos humildes servos e guerreiros do Deus Todo-poderoso - falou Daren, adiantando-se a Renan e erguendo o escudo por precaução. - Exigimos encontrar o mestre deste castelo. Não pretendemos ferir ninguém.
Como se duvidassem das intenções do Capitão, as sombras de olhares ameaçantes demoraram em manifestar alguma resposta. Quando, enfim, se afastaram silenciosamente consentindo a passagem dos homens, Daren continuou pelo improvisado corredor de olhares cintilantes com cautela, com o atemorizado Renan no encalço. A atmosfera de tensão aumentou, quando inoportunas correntes de ar fizeram oscilar a luz da tocha dos cavaleiros.

Um pouco à frente, o salão terminava numa escada ascendente de mais de trinta degraus, com largura semelhante ao espaço formado entre as colunas do recinto. Observado pelas sombras, Daren descobriu o que restara dos corpos de outros três santos, que encontraram um fim brutal quando subiam pela escada. Renan, amedrontado com os olhares avermelhados, virava-se uma vez ou outra.
Quando o Capitão alcançou o nível superior, percebeu que chegara a uma câmara usada pelos zargulls cortesãos do mestre do castelo. No fim da câmara, dois círios, duas luzes tênues flanqueavam um assento, um trono, que parecia feito de madeira. Daren percorreu com o olhar o novo recinto. Mesas quebradas e partes de cadeiras resistiam ao tempo, como uma distante lembrança da anterior presença humana no lugar.

 

Enquanto caminhava na direção das luzes, o Capitão notou um estranho movimento no lado oposto, acima do trono. Um leve calafrio lhe percorreu a espinha quando descobriu na penumbra, descendo do alto da parede, um homem nu, que engatinhava pelas pedras como uma aranha. Deteve-se e observou o desconhecido alcançar o assento e se ajeitar nele. Pensou na sua espada afiada e no poder de penetração das flechas que Renan levava.
- Quem é você, homem de habilidades excepcionais? - perguntou Daren. O santo esperou alguns instantes, mas como não recebeu resposta, adiantou-se. Os olhos oblíquos e penetrantes, a cabeleira negra como a noite, os músculos desenvolvidos, as unhas compridas, a pele enegrecida e curtida do desconhecido imperturbável no trono, não revelaram um homem comum.
- Pelo sagrado nome do Único Deus Verdadeiro, responda: é você o mestre dos zargulls? - insistiu Daren, tenso, parando a doze passos do trono.
- Quem vocês pensam que são, criaturas frágeis, para vir nos perturbar em nosso próprio lar? - respondeu enfim o estranho com uma voz grossa, profunda, quase confundida com um rosnado, que estremeceu as paredes de pedra.
- Vim exigir justiça para as vítimas das incursões malignas dos zargulls - disse Daren, sem se mostrar intimidado.
O batimento de asas recomeçou no lugar.
- Então é comigo que deves falar - respondeu o desconhecido, levantando. - Lembro-te, guerreiro de manto marrom, que vives porque apesar de carregar uma espada, mostraste antes tuas palavras - acrescentou em seguida, abaixando-se do lado do assento e pegando algo, parecido com um embrulho de vestes e peças de armadura, que atirou com facilidade e indiferença aos pés do cavaleiro. O Capitão dissimulou sua ira, quando descobriu que um dos corpos que caíram diante dele era o de Mabert.
- Vocês mataram alguns dos melhores filhos de Hemakiel. Entreguem o castelo, criaturas malignas, ou sofram as conseqüências.
O senhor do castelo soltou uma gargalhada tétrica e deu alguns passos ameaçadores na direção dos santos. Renan colocou uma flecha no arco, enquanto Daren pensava no movimento que devia executar para desembainhar a espada com rapidez.
- O que vocês conhecem realmente dAquele que chamam de Deus? - inquiriu o mestre dos zargulls, parando de repente - O que vocês sabem deste mundo ou do Criador? O que vocês sabem?! - Rugiu e seus olhos cintilaram como faíscas vermelhas.
- Lutamos pela Verdadeira Fé...
- Fé? Vocês, homens, criaram uma religião para dar um sentido a suas vidas e agora não conseguem se desvencilhar dela. Ela comanda seus atos. Sua religião patética é falsa!
- Blasfêmia! - gritou Renan, preparando-se para disparar a flecha. Daren, de imediato, interveio para acalmar o irmão. Depois se virou para o senhor dos zargulls.
- Deus ordena que este ninho de criaturas malignas seja destruído...
- E como Ele fez para expressar o que queria? - questionou o zargull com um sorriso sarcástico. - Não somos criaturas malignas. Assustamos vocês, seres medíocres, porque fomos abençoados com a faculdade de imitar outras formas de vida. Podemos nos transformar no que quisermos...
- E assim matar camponeses e assolar vilas indefesas...
- Somente matamos para sobreviver. Para nos alimentar ou proteger. Nossa aparência espanta as cabeças ignorantes que não sabem o que é belo para a Luz...
- Deus nunca criaria aberrações assassinas como você...
- Quem é você para julgar a vontade do Supremo ou nossa conduta? Vocês, homens, são seres perigosos. Precisam de regras, normas, para conviverem e, mesmo assim, conseguem se trair e destruir os uns aos outros. Vocês são a peste do mundo...
Daren ficou atônito diante das palavras de uma criatura que até pouco tempo considerara demoníaca.
- Não viemos aqui para discutir... - disse, envergonhado, ao tempo que o mestre dos zargulls, de maior estatura, virava-se e voltava para o trono.
- Você não precisa se preocupar mais conosco. Somos nós que não conseguimos conviver com vocês. Sua presença provoca-nos nojo. Deixaremos a Terra Conhecida à sua sorte e partiremos para o leste.
- Do que você está falando? - questionou Daren.
- Amanhã de manhã este castelo poderá ser seu de novo.
Renan relaxou. O Capitão suspirou aliviado.
- Volte para os seus, cavaleiro, - acrescentou o senhor dos zargulls - e lembre das minhas palavras: Não falta muito para que a maior das verdades seja conhecida. O mundo está preste a mudar.

Instantes depois, Daren e Renan desceram pela escada.
- Amanhã faremos os ritos fúnebres aos irmãos caídos - disse o Capitão, enquanto refaziam o caminho de volta pelo salão, livre dos olhares avermelhados. A residência senhorial parecia mais desolada que nunca... transbordante de tristeza como o espírito do veterano, que se questionava se as palavras do zargull estavam carregadas de razão...
- Bendito seja Deus, Capitão! Amanhã será um novo dia - extravasou Renan, alegre. - Finalmente nos livraremos dessas aberrações.
- Sim, irmão, um novo dia... contudo, não será que são elas que se livram de nós? - respondeu Daren, antes de fechar seus pensamentos numa curta oração...

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[1]
Mistura líquida e viscosa, composta de cal viva e petróleo, entre
outras substâncias, que se inflamava em contato com a água.

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